As escrituras

O que os Apóstolos ensinavam?

As diversas escrituras

O ensinamento oral era predominante, bem poucos sabiam ler, e mesmo para os alfabetizados era difícil interpretar aquilo que era lido, além do fato de que as pessoas não tinham rolos da Torá em casa. Tudo isso aumentava a importância do papel dos Rabinos nos estudos.

Em relação aos assuntos contidos na Tanakh, existiam escrituras que poderiam ser consultadas, mas quanto aos ensinamentos de Yeshua HaMashia, eram os Apóstolos quem os transmitiam verbalmente.

Com o tempo muitos livros foram surgindo até que se fez necessária a formação de um cânone, que demorou por volta de 250 anos para ser concretizada.

A princípio, os líderes das congregações publicavam listas de livros que acreditavam serem inspirados e autoritativos. O mais antigo documento encontrado, que continha uma destas listas, é de 170 d.C. e é chamado de "Fragmento Muratoriano".
Por volta de 397 d.C., o Terceiro Concílio de Cartago canonizou a lista com 27 livros que constavam na "Carta Oriental" de Atanásio, bispo de Alexandria, oficializando a B'rit Chadashá.

Tanakh

A Tanakh é um livro sagrado onde os segredos Divinos mais sublimes assumem uma roupagem de narrativa histórica a fim de permitir-nos aprendê-los.original.

É uma obra santa e sagrada, mas não é psicografada. Líderes religiosos atribuem uma autoria mística para conseguirem embutir seus princípios pessoais nas entrelinhas do texto sagrado.

Compilada pelos homens da Grande Assembleia[cntx], tornou-se um Livro Sagrado por volta de 400 a.C., e não recebeu nenhuma modificação até os dias de hoje.
O restante dos livros da Tanakh foram acrescentados e canonizados aos poucos: os Nevi'im por volta de 200 a.C., e os Ketuvim 100 d.C..

Seu nome vem do acrônimo das divisões do texto massorético: ToráEnsinamentos, Nevi'imProfetas e KetuvimEscritos. É uma coleção de 24 livros, sendo que 22 foram compostos em Hebraico Bíblico, e os outros dois estão em Aramaico Bíblico.

Sefer Matitiyahu

Este livro consolidou-se como o documento mais importante, estudado e distribuído entre as comunidades do cristianismo primitivo, muito antes de Roma criar o formato atual da Bíblia. Embora tenha sido composto a partir do relato mais antigo de Marcos, Mateus tornou-se o manual principal daquela época devido à sua estrutura organizada. É um importantíssimo documento a ser preservado pela humanidade, gerando debates até hoje no judaísmo tradicional por sua forma de interpretar as profecias.
São inúmeros os fatores que levaram o autor a enfatizar que seu Mestre era o Messias aguardado nas Escrituras, buscando a todo momento conectar os fatos à Tanakh[ndr]. O texto reflete a preocupação da época em provar essa ligação, mas os ensinamentos, os milagres, a morte e a ressurreição de Yeshua mostraram-se provas muito superiores de sua essência divina. Ser ou não aceito dentro dos critérios políticos e religiosos da época, principalmente pelos fariseus[ndr], não diminui sua grandeza, pois, acima de qualquer título, verdadeiramente Yeshua é o Filho amado, em quem יהוה se agrada.

Carta de Jacó

Acredita-se que é o documento mais antigo da B'rit Chadashá, e é essencialmente uma aplicação prática do Sermão da Montanha e das leis de justiça social da Torá.

Conhecida no mundo romano pelo nome de "Epístola de Tiago", esta carta foi escrita originalmente para os judeus nazarenos que sofriam com a imaturidade espiritual, servindo como uma explicação prática e direta dos ensinamentos de Yeshua. Com uma linguagem firme e sem rodeios, ela funciona como um manual de conduta que se dirige não só aos judeus daquela época, mas a toda a comunidade HaDerech, focando na importância de viver a fé por meio de ações reais.

Didaquê

É um manual de instruções baseado em ensinamentos que circulavam entre os primeiros discípulos, reunidos na região da Palestina ou da Síria entre os anos 60 e 90 d.C. A função desse documento era ensinar as tradições da comunidade HaDerech para as pessoas de outros povos (os gentios) que passavam a acreditar em Yeshua HaMashia.

Como os textos originais em hebraico ou aramaico se perderam, hoje só temos acesso a cópias antigas em grego. Por isso, quem faz uma leitura mais atenta percebe que algumas partes receberam alterações posteriores. Fica evidente a contaminação feita no texto pelos seguidores daquela que chamo de Opositora Trindade[ndr] — os primeiros teólogos que começaram a desviar os ensinamentos de Yeshua de sua raiz original. Mesmo com essas modificações, o documento é muito valioso e merece ser lido, especialmente do capítulo 1 ao 6.

B'rit Chadashá

A leitura da B'rit Chadashá exige atenção ao seu contexto de formação, uma vez que a seleção e a canonização de seus livros ocorreram séculos após o período dos apóstolos. Historicamente, os primeiros discípulos não conheceram a estrutura do Novo Testamento como a temos hoje, pois as cartas e evangelhos circulavam de forma independente no primeiro século.

Durante o processo de tradução e compilação ocidental, o pensamento estritamente judaico dos autores originais acabou recebendo influências conceituais de culturas helênicas e romanas, o que gerou debates teológicos complexos sobre quais trechos refletem fielmente as raízes hebraicas e quais foram adaptados a moldes posteriores. O próprio Pedro, em seus escritos, já alertava que as cartas de Paulo continham pontos difíceis de entender e que eram facilmente distorcidos por falta de instrução.

O ponto fundamental para o leitor é compreender que os ensinamentos originais de Yeshua e de seus apóstolos eram totalmente baseados na Tanakh. Eles viviam e ensinavam a Torá, de modo que a B'rit Chadashá, em sua essência histórica, não veio para contradizer ou anular as instruções divinas anteriores, mas para confirmá-las.

Bíblia Sagrada

Trata-se da compilação dos textos que o Ocidente convencionou chamar de Antigo e Novo Testamento. No processo de transição da Tanakh judaica para o formato do Antigo Testamento Cristão, foram adotadas uma nova divisão de capítulos, uma ordem diferente para os livros e, em algumas tradições, a inclusão de novos volumes.

Além disso, escolhas de tradução feitas ao longo dos séculos introduziram nuances teológicas ocidentais que nem sempre existiam nos manuscritos originais. Apesar dessas alterações pontuais de formato e tradução, a mensagem ética e a narrativa central das Escrituras Hebraicas foram preservadas, servindo como a base indispensável para compreender o cenário em que o cristianismo primitivo nasceu.


As diversas leituras das Escrituras

A mensagem das Escrituras Sagradas, ao longo da história, tem sido enxergada através de três lentes fundamentalmente diferentes:

A lente do Dogma e do Poder:
É a leitura que faz o texto dizer exatamente o que as instituições precisam que ele diga para validar suas próprias doutrinas e manter o controle, mesmo que para isso seja necessário distorcer o sentido original.

A lente da Teologia Abstrata:
É a leitura que enxerga o texto através de teorias e filosofias posteriores. Preocupada com conceitos complexos criados séculos depois, essa visão muitas vezes ignora a simplicidade da mensagem prática e o coração das Escrituras.

A lente da Exegese Histórica:
É a leitura comprometida com as evidências. Ela busca reconstruir, com a maior honestidade possível, o que o texto dizia aos olhos da cultura, do idioma e da época de quem o escreveu. Embora seja uma ferramenta humana e sujeita a falhas ou vieses de quem estuda, ela continua sendo o caminho mais seguro e transparente para nos aproximarmos da verdade original, longe das conveniências do poder.


O Caminho

O Caminho Divino não pode ser encontrado em megaeventos promovidos por celebridades religiosas, em espetáculos de curandeirismo e exorcismo, ou em palestras encantadoras que misturam conveniências humanas com trechos das Escrituras Sagradas.

O Caminho é difícil e árduo. O Reino de Deus exige dedicação sincera: é trilhado com estudo constante, oração e jejum. Ele é descoberto depois que conhecemos a dor de não poder mudar o passado, e depois que aprendemos como é difícil transformar nossas atitudes no presente.

Os justos que buscam o verdadeiro Caminho assemelham-se aos seguidores de HaDerech do primeiro século. Eles buscam manter como alicerce de sua fé e conduta a justiça prática da Tanakh, a instrução comunitária do Didaquê, a ética da Carta de Jacó e o testemunho histórico das palavras de Yeshua preservadas nos Evangelhos — lidos sempre sob a luz do contexto original e com o filtro da honestidade histórica.

O que passa disso é confusão.

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